Absurdo! Mulheres reproduzem a misoginia estrutural e condenam a mãe pelo crime do pai que matou os 2 filhos em Itumbiara

Eu poderia estar escrevendo sobre Carnaval, sobre blocos, sobre qualquer assunto leve desta época do ano. Mas é impossível ignorar o caso chocante e estarrecedor que abalou o Brasil, ocorrido em Itumbiara-GO.
Sarah Tinoco Araújo é a mãe dos dois meninos assassinados. Uma mulher que enterrou um filho em um dia e, no dia seguinte, recebeu a notícia da morte do segundo, que estava internado em estado grave. Essa é a dimensão da dor.
Quem matou foi Thales Alves Naves Machado, pai das crianças. Ele atirou contra os próprios filhos, de oito e doze anos, e depois tirou a própria vida.
Esse é o crime.
Não existe outro responsável.
Não existe justificativa.
Não existe culpa compartilhada.
Ele matou.

O que veio depois foi uma vergonha coletiva.
Um grande público decidiu atacar a mãe. E o pior: a grande maioria dos comentários nas redes sociais partiu de mulheres. Mulheres apontando Sarah como culpada. Mulheres dizendo que ela provocou. Mulheres insinuando que uma suposta traição explicaria o assassinato dos filhos. (vejam comentários no fim)
É preciso falar de forma clara. Ele não perdeu a cabeça. Ele planejou.
Thales sabia que o casamento de quinze anos tinha acabado. Sabia que o divórcio estava em andamento. Sabia que Sarah não o queria mais. Sabia que ela não sentiria falta dele como marido.
Ele também sabia de outra coisa. Sabia que o amor dela era pelos filhos. Não por ele.

E foi exatamente isso que ele decidiu destruir.
Ele colocou o ódio contra a mulher acima do amor que deveria ter pelos próprios filhos. Ele sabia que tirar a própria vida seria pouco. Ele não queria apenas morrer. Ele queria deixá-la viva. Viva para sofrer. Viva para carregar a pior dor que uma mãe pode carregar.
Ele quis acabar com ela sem precisar matá-la.
A família de Sarah é tradicional e respeitada na cidade. O pai dela é prefeito. Thales ocupava o cargo de secretário na prefeitura por confiança da família. A casa onde viviam era da família dela. A estabilidade profissional e política que ele tinha estava ligada à estrutura construída por ela e por sua rede de apoio ao longo de muitos anos.
Ele conhecia essa estrutura. Sabia o impacto que o crime teria. Sabia a repercussão. Sabia que a cidade falaria. Sabia que a internet julgaria.
E julgou.
Sarah precisou sair escoltada do velório do próprio filho. Havia pessoas a ameaçando, xingando, acusando. Uma mãe impedida de viver o próprio luto porque parte da multidão decidiu transformá-la em culpada.

Isso é cruel. Isso é desumano.
Segundo informações da polícia e de pessoas próximas, a separação ocorreu após Sarah descobrir uma traição dele. Foi ela quem pediu o divórcio. Ele não aceitava. Na semana do crime, pediu para ficar com os meninos dizendo que comemoraria o próprio aniversário. Dentro do processo de separação, havia divisão de convivência. Sarah estava viajando.
Não houve abandono. Houve confiança.

E essa confiança foi usada como arma.
Ele atirou na cabeça dos próprios filhos. Isso não é ato passional. Isso é execução.
A carta que deixou não foi desespero. Foi organizada, detalhada, consciente. Foi uma tentativa de transferir culpa e contaminar a narrativa. Ele tentou garantir que ela fosse julgada junto com ele.
E muitas mulheres ajudaram a cumprir essa parte do plano.
Quando mulheres repetem que ela provocou, que ela deveria estar em casa, que traição explica violência, estão reproduzindo a misoginia estrutural que insiste em responsabilizar mulheres pelos atos criminosos de homens.
Nenhuma traição justifica homicídio.
Nenhuma separação explica dois tiros na cabeça de crianças.
Nenhuma frustração autoriza massacre.
Ele foi covarde. Foi narcisista. Agiu por posse e por incapacidade de aceitar que uma mulher pode ir embora.
Ele quis destruí-la emocionalmente, socialmente e moralmente. Quis atingir o coração, a reputação e a rede de apoio dela.
E conseguiu causar a pior dor possível.
Mas há algo que não pode acontecer. Que o plano dele se complete.
Espero que Sarah não aceite a culpa que tentam impor. Que não se deixe consumir pelo roteiro que ele tentou escrever. Que não se enterre emocionalmente junto com os filhos, como ele quis provocar.
Sarah não é causa. Não é gatilho. Não é corresponsável.
Ela é vítima.
O que aconteceu em Itumbiara foi um crime brutal. O que aconteceu depois foi a exposição nua de uma cultura que ainda pune mulheres até quando elas enterram os próprios filhos.
E isso não é apenas lamentável.
É revoltante.



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