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Opinião: Fechando mais um supermercado: espaços, afetos e vivências numa cidade de Pernambuco

 Mais um fechamento de um supermercado no antigo prédio do Cine Urubatã nos faz pensar sobre várias questões.

Mais um supermercado instalado no antigo Cine Urubatã que fecha as suas portas
Imagem: Elthon Taurino

Por: Borges de Fraga

O [Cine] Urubatã era orgulho de uma cidade, de um povo, de uma região, de um município, de um Estado, e eu não sei dizer nem do que mais. O Urubatã jamais terá outro igual, só ficou mesmo uma coisa que eu defino de uma maneira, encerrando esta entrevista em minhas palavras. Jorge disse a Carolina com toda facilidade, quando se vai um amor que a gente tem amizade, vai se embora a tristeza, mas fica rondando a saudade. Saudades do Urubatã.
(Entrevistado 6), em resposta a Edgar Melo, pesquisador da Storytellers Brazilian Productions (SBP).

Tudo o que eu disser e que meus companheiros venham a falar do Urubatã é muito pouco porque só quem vivenciou aquilo é que sente a emoção de falar daquele espaço, era um espaço que jamais poderia ter acabado, jamais.
(Entrevistado 5), em resposta a Edgar Melo, pesquisador da Storytellers Brazilian Productions (SBP).

                Mais um supermercado fecha no antigo prédio do Cine Urubatã. O que há ali que impede de investimentos darem certo? É uma pergunta capciosa e, decerto, um tanto custosa de responder. Mas é – e nisso temos que concordar -, inteiramente audaciosa.  Porque faz refletir sobre uma história dos sentidos, dos afetos, das experiências. De como tudo isso pode dotar de sentido um espaço em específico e como este pode existir na memória coletiva como sendo sempre um palco dos prazeres, do exercício da vida, do ser e estar. Faz refletir sobre um tempo em específico, mas também de como somos sempre uma cidade fadada ao saudosismo, designada sempre ao que existiu e não existe mais. Uma cidade de ruínas físicas e afetivas. Quanto tempo durará o próximo supermercado?

Fevereiro de 1957. Começava a construção da nova capital do Brasil, Brasília. O país mudava com Juscelino Kubitschek. Era um novo Brasil que despontava: um Brasil moderno que sinalizava para novas formas de conduta e comportamento ao som da Bossa Nova. À época governava Pernambuco, Etelvino Lins de Albuquerque. Em Goiana estava à frente da Prefeitura o velho Lourenço de Albuquerque Gadelha. O Brasil estava com tudo, já Goiana ia apresentando certo descompasso na vida econômica. Depois da morte de José Albino Pimentel, em 1953, dono da FITEG, a cidade entrou no início de certo aperreio decadente. Foi o início do fim de uma fábrica que mudou intensamente a atmosfera social de Goiana. Mas em maio de 1957 uma inauguração ia marcar profundamente a vida dos goianenses: era a inauguração do Cine Urubatã, um dos cinemas mais modernos do Norte-Nordeste brasileiro.

(Imagem 1) Nota publicada no Diario de Pernambuco informando sobre a inauguração do Cine Urubatã em Maio de 1957.

A inauguração se deu no dia 25 de Maio, último sábado do mês. Como é possível observar nesta pequena nota publicada no Diário de Pernambuco, contou com a presença do governador do Estado, além da bênção, é claro, do cônego Fernando Pessoa. O último parágrafo da nota demonstra bem a novidade que reluzia no norte de Pernambuco: “o Cine Urubatã é um dos mais modernos de todo o interior do Nordeste, com instalações de cinemascope”. A tecnologia implementada há pouco tempo no Brasil, com nova proporção de tela e nova tecnologia de áudio, mexeria de forma contundente a relação com a imagem e o som não só de goianenses, mas também de todos aqueles e aquelas da região que puderam experienciar a nova tecnologia.

O cinema durou cerca de trinta anos. Durante a sua existência foi palco não só de exibição de filmes e de festivais de músicas, mas de toda uma experiência de vida e de época dos goianenses. Foi palco elementar dos encontros e desencontros; das paqueras; dos afetos; dos amores proibidos; dos desenganos; das mentiras; das descobertas; do primeiro beijo; do primeiro palpitar do coração; da emoção e do arrependimento de subir num palco; dos ciúmes; das indecências prazerosas; das safadezas. O Cine Urubatã era a rede social da época; era o terreno fértil da juventude; das ideias; dos poetas; dos metidos a intelectuais e também dos intelectuais; dos jovens comunistas, dos estudantes e dos playboys; das pensadoras, pensadores, namoradeiras e namoradores; das preocupações de pais conservadores e da liberdade que a atmosfera do cinema ajudava a alimentar.

(Imagem 2) Foto interna do Cine Urubatã. Aqui é possível perceber as blusas em xadrez comumente usadas na década de 1960. A grande aglutinação de pessoas provoca a reflexão sobre o calor humano e suas realizações/consequências. Autor e ano desconhecido.

No final da década de 1980 o povo de Goiana se despediu do cinema diante de uma clima de luto. Dado as condições adversas que emergiram, dificultando a sua continuidade, foi vendido para uma rede de supermercados. A comoção se generalizou. O antigo cinema tinha sucumbido diante de todos. Não só ele, inclusive. A decadência foi geral, afetando também boa parte dos cinemas brasileiros. Afinal, a Televisão venceu aquela batalha e o VHS deu-lhe um golpe que pareceu mortal.

Nesse tempo em Goiana as cadeiras do antigo Urubatã deram lugar a prateleiras divididas por seções: frutas, verduras e legumes; materiais de limpeza… O palco se transformou numa padaria e num açougue, a sala de projeção: um escritório. As antigas escadarias deram lugar a uma entrada ampla na linha do chão e as antigas bilheterias tornaram-se guarda-volumes. Nos trinta anos que se seguiram desde a sua venda, o prédio nunca foi outra coisa senão supermercado. Aliás, foram muitos, mas todos fecharam. Nenhum conseguiu uma vida prolongada: a falência sempre pareceu certa.

Há, contudo, algo muito forte que nos move a refletir sobre isso. Por que todos os supermercados ali instalados fecharam em pouco tempo? Agora mesmo acabou de fechar mais um e, como que caldo de cana, outro já está no gatilho para abrir. A rotatividade de empreendimentos durante estes trinta anos, para não chamar de falências cíclicas, nos leva a pensar sobre qual a força que age sobre os sonhos ali empreendidos de modo a não deixá-los se realizarem. Uma maldição do Arnold Nogueira, antigo proprietário? Os céticos iriam ignorar a partir de agora meu texto!

Um historiador chamado Michel de Certeau fala uma coisa que é bem interessante: “o espaço é um lugar praticado”. Enquanto lugar da experiência humana, ele tem uma necessidade de ser vivenciado; de se estabelecer relações e vivências. Relações e vivências são as responsáveis por significar um espaço, seja ele físico ou simbólico. Pensar no Cine Urubatã, portanto, é também pensar em relações e vivências, ou seja: é pensar nas ações, condutas e comportamentos ali empreendidos que deram ao espaço um significado distinto ou, quem sabe, singular. Estamos falando em sonhos, em sentimentos profundos, em forças importantes que perpassam e transformam toda a estrutura de alvenaria resultando numa memória afetiva coletiva que por enquanto ainda persiste entre os goianenses.

(Imagem 3) Notas publicadas no Diario de Pernambuco sobre o I Festival de Música Popular Goianense realizado em 1971

A seguir trato um pouco dessa memória ainda bruta, mas que pode indicar elementos importantes que estruturam essa afetividade coletiva para com o prédio. É uma coisa breve. Aparece aqui mais para indicar um caminho a ser percorrido posteriormente, do que para ser uma explicação sisuda e engessada: temos mais perguntas que conclusões.

(Imagem 4) Foto externa do Cine Urubatã. Autor e ano desconhecido.

O Cine Urubatã era o ponto de entrecruzamento de pessoas que ali teciam relações variadas. “O Urubatã pra mim foi a rede social da minha época, hoje todo mundo vive aí no Facebook  e no Orkut, naquela época não. O pessoal não ia só pra assistir filme não, era também pra ficar ali dialogando no salão, na recepção”, ressaltou certo entrevistado a um pesquisador da Storytellers Brazilian Productions (SBP), cujo nome resolvemos não revelar, mas que podemos identificar como sendo “Entrevistado 1”. Já outro participante da pesquisa foi mais enfático. Ao ser indagado sobre a importância do cinema em Goiana retrucou prontamente: “pra mim era mais importante o Urubatã do que algumas igrejas, porque o Urubatã tem uma importância fundamental na cultura de Goiana, é de toda importância, para o velhos para o jovem, todo mundo” (Entrevistado 2). Mais que um prédio de cimento e tijolo, um espaço de vivência e relações.

            Enquanto espaços de vivência, era ali que o choque de modernidade com a tradição se dava. Havia, aliás, na época, uma explosão em curso de mudança de comportamento. Como era de se esperar, parte da juventude goianense adere aos cabelos grandes, a calça boca de sino e as botas tão comuns da Jovem Guarda.

“Nos anos 60 estava surgindo o movimento em todo o mundo dos “Cabeludos”, aquela coisa toda”, relata o primeiro entrevistado, acrescentando:
E nós encaramos uma barra muito grande, primeiro pela nossa maneira de vestir, pela nossa maneira de nos produzir. Tinhas as calças […] santroppê, as calças floridas, listradas, os blusões tropicalistas já, o advento da mini saia e tudo isso gerou uma problemática.” (Entrevistado 1)

            Problemática que tinha o cinema como seu principal espaço de atuação. Quando dos festivais de músicas ou de exibições de filmes, mostravam-se as roupas e os gestos. Comportava-se como a nova tendência propunha, agia e falava como a moda imperava: mastigava-se chiclete, o andar era imitado da grande tela, as gírias eram outras, assim também os sotaques, as cantadas, os penteados. Havia espaço para a chacota, é claro: “ficava aquela turma na entrada esperando o povo chegar. Cada uma que passava os meninos soltava uma graça. […] juntava aquela cambada e quando não era aquela gargalhada” (Entrevistado 8). A sessão não podia ser diferente: “[…] quando abria a parte de cima sempre alguém tinha o compromisso de levar o gato e no melhor do filme soltava o gato de lá de cima onde caia e o desmantelo era feio, aí termina a sessão, era um corre-corre danado” (Entrevistado 1).

O Cine Teatro Urubatã, aliás, façamos a devida correção, enquanto espaço de vivências, foi o palco preferido do libido e da libertinagem. “Todo final de semana era um romance diferente. E o melhor de tudo: geralmente terminava no banheiro feminino, na cara de pau. As paixões terminavam no banheiro feminino, uma área mais reservada, né? Tão boa” (Entrevistado 1). Era no cinema que as paixões fluíam, que os lábios se encontravam sem que houvesse tanta preocupação: “tinha muita coisa que acontecia dentro do cinema e quando as luzes acendiam acabava aquele clima, né? A coisa só rolava enquanto a sessão estivesse rolando, acenderam-se as luzes, acabou-se a sessão, acabou o amor”. E de pensar em quantos amores despertaram e também sucumbiram nesse jogo de luzes. Agora nas sessões vazias, o clima esquentava e muito:

“[…] começava com um dedinho, dois dedinhos, depois três, depois a mão toda e daqui a pouco ficava ali apertando a mão e tal, e puxava aqui, já dava um cheiro, depois saía um beijinho na boca, aí o negócio ia esquentando e esquentando, daqui a pouco tome a mão pra baixo e tome a mão pra cima e ficava aquela mistura e pega no peito e bota a mão por dentro da blusa, né? “(Entrevistado 3)

            Para quem viveu o Urubatã as memórias são muitas e variadas. No entanto, todas ressaltam, ainda que nas entrelinhas, a “magia” de se encontrar no cinema. De se encontrar para estar no mundo. Para criar, para discordar, para ser. Para tecer e experienciar relações, para agir, para viver. Não teria como a população não ficar enlutada com o seu fechamento. Sobre o herdeiro do cinema, um entrevistado ressalta: vendeu (o prédio), se não me engano, a uma rede de supermercado chamada Continental e infelizmente tudo o que ele ficou desse patrimônio foi com 250 mil cruzeiros. Comprou um Monza, que era o carro da época, e foi passear com a família na Europa”. (Entrevistado 1), Um Monza e uma viagem para a Europa. Queria mais o que? E assim morreu o Cine Teatro Urubatã.

                Morreu na matéria, no palpável, mas ainda está vivíssimo nas lembranças. É que as experiências, as relações do corpo com o espaço e seus resultados, deixam marcas profundas. Vai ver é isso que impede de qualquer negócio florescer no antigo prédio do cinema. Uma espécie de força. Aliás, uma espécie de impressão afetiva que perpassa esse bloco de concreto construído nos anos de 1950. Um campo energético marcado de saudade influi ali. Eu concordo com o entrevistado 5, quando diz:

O supermercado vai pra outro lugar e ali volta ser uma casa de espetáculo. Essa era uma proposta de minha vida, eu acho que eu morreria muito feliz se antes de subir daqui pra próxima tivesse a oportunidade de cantar no Urubatã, porque o Urubatã é… Não há palavras, não há palavras, tudo eu digo e que meus companheiros venham a falar do Urubatã é muito pouco porque só quem vivenciou aquilo é que sente  emoção de falar daquele espaço, era uma espaço que jamais poderia ter acabado, jamais.” (Entrevistado 5)

                É que em Goiana as coisas parecem ser mais difíceis. Um espectro arcaico ronda a cidade. Uma mentalidade de engenho Banguê ainda pode ser vista facilmente nos círculos locais de poder. Parece que é uma cidade do lamento. O passado é sempre saudosista. O presente: um resultado de vários erros sobrepostos. Já o futuro é uma mistura de expectativa e pessimismo. Confesso que a balança pesa sempre para este último lado. Parece muito com um negócio que fala o Paul Ricoeur: a história de Goiana encarrega-se sempre dos mortos de antigamente de quem somos herdeiros. Estudá-la pode ser um sepultamento. Sendo assim, “o trabalho de luto separa definitivamente o passado do presente e abre espaço ao futuro” (RICOEUR, Paul in: A memória, a história, o esquecimento.).

            Mais um fechamento de um supermercado no antigo prédio do Cine Urubatã nos faz pensar sobre todas essas coisas. Embora diante do fato reine a desesperança, o espaço físico e afetivo parece nos dizer que é um elo perdido do goianense consigo mesmo. Tão na cara, no entanto tão custoso de se reatar. De fato, é de se aceitar a impossibilidade reativá-lo. Quem sabe é mesmo. É porque pensar qualquer coisa em Goiana tem que ser assim: poderia ser feito, mas não é, poderia ter sido, mas não foi.

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