Pretinha do Congo: Conheça a manifestação cultural que existe somente em Goiana


Agremiação de Carne de Vaca é beneficiada por projeto de resgate e formalização para possibilitar acesso a editais públicos e a participação no carnaval do estado.

Pretinha do Congo é uma manifestação cultural que nasceu na Paraíba e foi “cedida” a Pernambuco em 1930, passando a ser um movimento peculiar e exclusivo de Goiana, no Grande Recife. Nessa cidade, estão os dois grupos existentes: Pretinhas do Congo do Baldo do Rio, criado em 1935, e a Nação Africana Pretinha do Congo, da praia de Carne de Vaca, no distrito de Tejucupapo, que completa 90 anos em 2020.

Historicamente, os dois grupos existentes têm a mesma origem, no início do século 20, mas o fundador é desconhecido. Em sua origem, era formado por meninas negras com menos de 18 anos, o que explica o diminutivo do nome, e sua criação é uma manifestação pela própria existência, pela necessidade de mostrar que, em uma terra de população maciçamente indígena, também existiam negros.

Agremiação muito localizada e praticamente desconhecida do carnaval pernambucano, a Nação passa, a partir deste ano, por um projeto de resgate (da sua história, coreografias, música e figurinos) e formalização, para facilitar a sua entrada no circuito da festa. Não se trata apenas de acesso a recursos, mas também de um passo para entrar no imaginário popular.
História da Pretinha do Congo

Para entender o que é a Pretinha do Congo, é preciso voltar até meados de 1930, quando o estivador Antônio Manoel dos Santos, conhecido como Pirrixiu, recebeu a “cessão” do brinquedo. Conta-se que o fundador não queria mais continuar e repassou o grupo.

O brinquedo passou para a filha de Pirrixiu, Maria do Carmo Monteiro. Dona Carminha assumiu o grupo aos 10 anos de idade e o manteve em atividade a todo custo. Porém, quando ela faleceu, em 2014, muito da história e da música das Pretinhas se foi com ela.

Desde então, Iracema e Rafaela, filha e neta de Dona Carminha, mantêm a Nação em atividade com o que aprenderam na oralidade e na vivência. Por muito tempo, a brincadeira ficou restrita às ruas de Carne de Vaca porque grupos informais não podem receber recursos públicos ou entrar em apresentações oficiais.

Segundo o produtor cultural Osmar Barbalho, Dona Carminha era católica e sua Pretinha não tinha vínculos com religiões de raízes africanas ou indígenas, praticamente uma regra entre outros grupos culturais de Pernambuco ligados ao candomblé ou à jurema, por exemplo. Os cantos ainda presentes nas apresentações entoam santos, não orixás ou entidades, mas é visível a influência direta da negritude.
Basicamente, a formação, a partir da frente, são duas filas de meninas. Ao centro, dois vassalos, que abrem espaço para um casal de rei e rainha. Por fim, o porta-estandarte, que traz a figura das pretinhas e o ano de fundação do grupo, lembrando a formação do maracatu de baque virado.

A Pretinha de Carne de Vaca sai com 35 integrantes e é uma agremiação, como se diz no linguajar popular, “que nunca dormiu”: desfilou em todos os carnavais desde a sua fundação, não importa em que condições.

A Nação era a vida de Dona Carminha, que, já doente, insistia para que as descendentes não deixassem o grupo acabar. “Ao mesmo tempo, ela não acreditava que a gente fosse conseguir, dizia que era muito difícil”, disse a neta, Rafaela.

No dia de sua morte, no hospital, Dona Carminha mandou a filha Iracema ir colocar as Pretinhas na rua. “Fui, organizei tudo, e meu filho ligou avisando que ela tinha falecido”, contou Iracema, emocionada.

Para os brincantes, a Pretinha é a única forma de diversão. Joseane Chaves, de 18 anos, estreia como rainha da Pretinha em 2020 e sai no grupo há quatro anos. "Fico feliz em participar", afirmou.
Formalização requer recursos

De acordo com Osmar Barbalho, a burocracia da formalização exige custos que nem sempre as agremiações podem bancar. A reforma do estatuto e eleições de diretoria a cada dois anos são providências que têm custos que chegam a R$ 1 mil.

“Sem isso, não se acessa políticas públicas”, declarou o produtor cultural que operacionaliza o projeto, financiado por iniciativa privada. É preciso, ainda, emitir nota fiscal e recolher Imposto Sobre Serviços (ISS), um tributo que, em Goiana, tem alíquota de 2%; no Recife, é de 5%.

“A cultura popular é patrimônio de família. Muitas vezes, as sedes são nas casas dos fundadores”, disse Osmar. Muitas vezes, essa informalidade é um obstáculo, uma vez que é preciso estar apto em termos fiscais e jurídicos para poder participar do carnaval, cuja seleção é via edital.

O trabalho com a Pretinha do Congo de Carne de Vaca dá continuidade a um projeto anterior, iniciado em 2018, que renovou estandartes de 15 agremiações de Goiana, Itambé e Itaquitinga, e que vai beneficiar outros 14 grupos este ano.

“Ano passado, tivemos nosso novo estandarte, uma coisa que a gente não poderia ter feito sozinhas. Ainda este ano, com esse projeto, quero estar com figurinos novos e que a gente cresça”, disse Rafaela.

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