Coluna Cena Cultura- Alexandre Veloso
Patrimônio de quem?
Estamos em agosto, quando é comemorado entre outras coisas, no dia 17 comemorado o Dia Nacional do Patrimônio Histórico e no dia 22 é comemorado o Dia do Folclore. Parece-me que falamos da mesma coisa, com nomes diferentes.
O primeiro carrega a importância de “bens” sendo sempre tratado com pompa e cerimônias. A etimologia da palavra, remete a herança, legados recebidos, herdados com valor para quem recebe. O segundo a palavra foi criada para distinguir o que era do “povo”, do saber popular, pelo arqueólogo inglês William John Thoms em em 1846, com o objetivo de criar um campo de estudo.
Para nós brasileiro o folclore sempre foi ensinado como o conjunto de lendas, crendices populares, bem diferente do patrimônio histórico cultural. Hoje as manifestações culturais ou cultura popular fazem parte do patrimônio imaterial. Continuo achando que tratamos da mesma coisa.
Enquanto o “patrimônio” é celebrado com seminários, eventos acadêmicos e semanas de papo furado o folclore é tratado como festa infantil nas escolas. Apenas em agosto, o Saci Pererê e outros colegas são lembrados. Nem sei se Comadre Fulôzinha participa dessa brincadeira.
Na nossa região, os patrimônios materiais de pedra e cal, como os engenhos, foram reconfigurados e transformados em joias arquitetônicas e acoplados ao turismo, beneficiando mais uma vez os herdeiros históricos, e estes promovem o apagamento do massacre do povo negro escravizado, absorvendo-se do legado de deixado pelos parentes torturadores e continuando a lucrar, desta vez omitindo e mentindo sobre a história. Pernambuco, entre suas maravilhas, há um engenho. Esse patrimônio não me pertence.
No campo do patrimônio imaterial, ainda são mantidas orquestras sinfônicas com recursos públicos, pagos por todos, para a diversão de alguns poucos afortunados. Esse patrimônio também não é meu. O modelo poderia também absorver uma Orquestra de Frevo, uma Banda de Pífano e um Trio pé de serra. Jamais, são manifestações populares, que se virem.
Os bens culturais são territoriais, participando do conjunto de símbolos praticado e percebidos como bens por determinada região. Qualquer coisa diferente disso, não pode ser identificado como patrimônio local.
A nossa burrinha com mandíbula articulada, paletó e peruca, é criação e patrimônio cultural de Goiana sim senhor. Já o afoxé da região metropolitana, é exótico ao nosso povo e, portanto, a falta de identificação é normal, anormal é a tentativa de querer criar evento para inglês ver; acho até que o William John Thoms não entenderia a escolha estapafúrdia e perguntaria, esse patrimônio é de quem?
Perfeito!
ResponderExcluirInfelizmente a nossa educação básica falha até em nos mostrar a importância da cultura para o povo, e todas as variáveis que ela se apresenta, seja pela preservação do nosso patrimônio, seja pela preservação da expressão máxima da cultura social loca que é nosso folclore.
Parabéns ao nosso amigo Alexandre Velozo e mais, obrigado por nos ajudar a preservar tudo que foi deixado como registro histórico e cultural da nossa vida, nossos antepassados, o caminho que trilhamos para chegar até aqui.
Parabéns ao nobre amigo Eduardo França pela feliz adesão desse nosso amigo como colunista do blog, isso engrandece sobremaneira a todos nós Goianenses e demais leitores.
TMJ 🫡🇧🇷