Burocracia financeira toma 9 horas semanais de pequenos negócios
Mariana Nacashima
03/11/2026 às 10h41
Empreendedor organiza documentos e controles financeiros do negócio
Kindel Media / Pexels
Donos de pequenos negócios dedicam, em média, nove horas por semana a tarefas financeiras e burocráticas. O dado é da pesquisa “Tempo é dinheiro: quanto a burocracia financeira custa ao pequeno negócio brasileiro”, feita pela Bridge Research a pedido do Nu Empresas e divulgada em 8 de outubro de 2026. Projetadas para um ano, são 468 horas.
O levantamento ouviu 1.200 empreendedores em julho, entre clientes e não clientes do Nubank. O painel é on-line e reuniu 560 microempreendedores individuais (MEIs) e 640 donos de micro e pequenas empresas. Os resultados se baseiam nas respostas dos participantes sobre o tempo dedicado às atividades, e não em registros diretos de jornada.
A conta de 468 horas equivale a cerca de 58 dias de oito horas, ou 2,7 meses de 22 dias úteis, sem descontar férias. O Nu apresenta o resultado como quase três meses de expediente.
Carga varia por porte e setor
O tempo dedicado às tarefas financeiras muda conforme o perfil do negócio. Entre os MEIs, a média é de oito horas semanais. Nas micro e pequenas empresas, chega a dez horas. No comércio varejista, são 11 horas por semana, ante oito em escritórios e consultórios.
As tarefas que mais pesam são as obrigações fiscais e tributárias (43%), o controle de entradas e saídas (41%), a emissão de notas fiscais (40%) e a conciliação de recebimentos (30%), que é a conferência de que o dinheiro das vendas entrou na conta.
A diferença entre os resultados por porte indica que a carga administrativa não é igual para todos os negócios. O volume de operações, a quantidade de transações e a divisão de responsabilidades podem influenciar a rotina financeira, embora a pesquisa não estabeleça uma relação direta entre crescimento da empresa e aumento do tempo gasto com burocracia.
Atividades importantes ficam para depois
O impacto da rotina administrativa também aparece nas atividades que os empreendedores afirmam ter adiado. Segundo a pesquisa, 85% disseram ter deixado de realizar alguma atividade importante nos três meses anteriores ao levantamento.
Entre as respostas, 37% mencionaram o planejamento do crescimento para o ano seguinte e 35% afirmaram ter adiado ações de divulgação e marketing. Além disso, 45% disseram ter perdido oportunidades por falta de tempo. Os dados refletem a percepção dos entrevistados, sem mensurar o valor financeiro das oportunidades não concretizadas.
O estudo também aponta que 68% dos participantes acreditam que teriam mais lucro se gastassem menos tempo com burocracia. O resultado, porém, representa uma expectativa dos empreendedores, e não um aumento de rentabilidade comprovado pela pesquisa.
Uso de IA é menor nas tarefas financeiras
Embora 66% dos entrevistados afirmem já experimentar ferramentas de inteligência artificial (IA), apenas 30% disseram utilizá-las em atividades financeiras ou administrativas. O uso é mais frequente na produção de conteúdo: 68% recorrem à tecnologia para redigir textos e 63% para produzir imagens e vídeos.
A diferença mostra que a adoção da tecnologia ainda está concentrada em atividades de comunicação, enquanto sua aplicação na gestão financeira é menos frequente. O próprio levantamento aponta que 53% dos participantes utilizam planilhas digitais para controlar o caixa e 23% recorrem a anotações em papel ou cadernetas. Os dados, contudo, não demonstram que o uso de controles manuais seja a causa da menor adoção de IA.
Nas PMEs, controle de despesas consome até 21 horas
Em junho, a fintech Conta Simples divulgou, em parceria com a Visa, seu segundo Panorama da Gestão de Despesas Corporativas, realizado pela New Field Research. O estudo aponta que pequenas e médias empresas dedicam cerca de 21 horas semanais à gestão de despesas. Como o escopo e a metodologia diferem dos utilizados pelo Nu, os números não devem ser tratados como medidas diretamente comparáveis.
Operação urgente ocupa espaço da estratégia
Os dois levantamentos mostram que tarefas financeiras e administrativas ocupam uma parcela significativa da rotina de pequenos e médios negócios. No estudo do Nu Empresas, o planejamento do crescimento e as ações de marketing aparecem entre as atividades adiadas pelos empreendedores. Já a pesquisa da Conta Simples e da Visa aponta que, em 46% das empresas, a gestão de despesas fica sob responsabilidade dos donos ou sócios.
A concentração dessas atividades nos responsáveis pelo negócio pode reduzir o tempo disponível para outras decisões de gestão. A organização dos processos envolve revisar controles, distribuir responsabilidades e avaliar a adoção de ferramentas digitais. A escolha depende do porte, do volume de operações e dos recursos disponíveis. Mesmo com a automação, a conferência das movimentações e o acompanhamento do caixa continuam necessários.
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