A taça do mundo é nossa, por Rui Leitão
Neste domingo, o mundo conhecerá o novo campeão da Copa do Mundo de 2026, na decisão entre as seleções da Argentina e da Espanha. A proximidade dessa grande final desperta em mim lembranças de uma das maiores emoções esportivas que vivi: a conquista definitiva da Taça Jules Rimet pelo Brasil, ao se tornar tricampeão mundial em 1970. Passados mais de cinquenta anos, aquela vitória continua viva na memória de quem teve o privilégio de testemunhá-la.
“A taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa.” Esse refrão ecoava por todos os cantos naquele chuvoso mês de junho de 1970. Como sempre acontece durante a realização da Copa do Mundo, o Brasil vestia verde e amarelo. Ruas, praças, vitrines e residências eram decoradas com as cores nacionais. Independentemente da classe social, da idade ou da profissão, os brasileiros compartilhavam o mesmo sentimento de esperança e orgulho.
Naquele ano, havia uma confiança contagiante em nossa equipe. A campanha impecável nas eliminatórias alimentava a convicção de que o país superaria a frustração da eliminação precoce na Copa de 1966. A cada partida, essa certeza aumentava. O elenco reunia alguns dos maiores craques da história do futebol: Pelé, Gérson, Tostão, Jairzinho, Piazza, Rivellino e Carlos Alberto Torres, sob o comando do técnico Zagallo. Não por acaso, aquela seleção é considerada, por muitos especialistas e torcedores, a melhor de todos os tempos.
Na manhã do dia 21 de junho, acordamos ansiosos diante da expectativa da grande decisão, disputada no Estádio Azteca, na Cidade do México, contra a fortíssima seleção da Itália, bicampeã mundial. Apesar das fortes chuvas que caíam sobre João Pessoa, o clima era de festa.
O primeiro tempo terminou empatado em 1 a 1, resultado que aumentava a tensão entre os torcedores. No entanto, na etapa final, a seleção brasileira apresentou um espetáculo de futebol. Com jogadas envolventes, talento e eficiência, marcou mais três gols e venceu por 4 a 1. A consagração do tricampeonato garantiu ao Brasil a posse definitiva da Taça Jules Rimet, erguida com orgulho pelo capitão Carlos Alberto Torres, autor de um dos gols mais bonitos da história das finais de Copa do Mundo.
Logo após o apito final do árbitro, a população tomou conta das ruas. Em João Pessoa, seguimos para a Lagoa, principal ponto de encontro da cidade. O Viaduto Damásio Franca e o antigo Ponto de Cem Réis transformaram-se no epicentro da comemoração. O viaduto, inclusive, foi excepcionalmente aberto ao trânsito antes mesmo de sua inauguração oficial. Era como se o próprio povo tivesse decidido inaugurá-lo em meio à explosão de alegria.
A música “Pra Frente Brasil” era executada em todos os lugares e embalava uma multidão tomada pela euforia. Ao mesmo tempo, o governo militar procurava associar-se ao entusiasmo popular, utilizando a conquista esportiva para fortalecer sua imagem perante a opinião pública. Em meio à emoção coletiva, muitos brasileiros deixavam temporariamente em segundo plano as tensões políticas e sociais vividas pelo país naquele período.
Aquele carnaval fora de época permanece como uma das lembranças mais marcantes da minha vida. Não foi apenas uma vitória no futebol, mas um momento de união nacional, em que milhões de brasileiros compartilharam a mesma alegria.
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